A Anatel divulgou em 20 de outubro de 2026 o Relatório de Monitoramento da Competição referente ao terceiro trimestre. Os dados confirmam o peso dos provedores regionais na banda larga fixa brasileira: o grupo chamado de “Outros”, que reúne a grande massa de pequenos provedores, responde por 55,5% dos acessos do país.
O relatório não cria uma nova obrigação nem altera regras para o setor. Sua importância está no diagnóstico: a própria agência reconhece que as Prestadoras de Pequeno Porte (PPPs) e os provedores regionais exercem um papel decisivo na expansão da fibra e na desconcentração do mercado.
O retrato da banda larga fixa
A banda larga fixa encerrou o trimestre com 57,9 milhões de acessos, segundo dados preliminares da Anatel. Desse total, 46,92 milhões utilizam fibra óptica — eram 43,23 milhões no mesmo período de 2025.
A fibra continua avançando enquanto as tecnologias mais antigas perdem espaço. Em um ano:
- os acessos por fibra óptica passaram de 43,23 milhões para 46,92 milhões;
- o cabo coaxial recuou de 8,16 milhões para 7,51 milhões;
- o rádio caiu para 1,80 milhão de acessos;
- o cabo metálico diminuiu para 550 mil acessos;
- o satélite, impulsionado pelas constelações de baixa órbita, cresceu de 670 mil para 1,10 milhão de conexões.
Os números mostram que a fibra permanece como a principal base da competição na banda larga fixa. Ao mesmo tempo, o crescimento do satélite merece atenção, principalmente nos municípios menores e nas áreas onde a construção de redes terrestres é mais difícil.
A força dos provedores regionais
O grupo “Outros”, composto principalmente por pequenos provedores regionais, alcançou 56,2% do mercado no trimestre anterior e aparece com 55,5% no terceiro trimestre de 2026. A própria Anatel alerta que essa pequena diferença pode decorrer de dados ainda não informados por empresas de menor porte, e não necessariamente de perda real de participação.
O mercado é pulverizado: existem cerca de 20 mil empresas com outorga. Por isso, atrasos ou falhas no envio das informações de acesso podem reduzir artificialmente a participação dos pequenos provedores nas estatísticas oficiais.
Entre as PPPs apresentadas individualmente no relatório, a Brisanet aparece com 2,7% do mercado e a Giga Mais Fibra, com 2,2%. Já entre as grandes operadoras, a Claro lidera com 18,8%, enquanto a Nio, sucessora da Oi Fibra, recuou de 7,2% para 6% em um ano.
O mercado mais desconcentrado das telecomunicações
A Anatel utiliza um indicador chamado HHI para medir a concentração dos mercados. Quanto menor o índice, maior é a distribuição dos acessos entre diferentes empresas.
Na banda larga fixa, o HHI nacional ficou em 0,0650, muito abaixo do limite de 0,1500 estabelecido pela agência para 2027. Segundo o relatório, a banda larga fixa é o mercado mais desconcentrado entre os serviços de telecomunicações de interesse coletivo regulados pela Anatel.
Esse resultado está diretamente relacionado à presença das PPPs. Nos municípios médios e grandes, a sobreposição das redes de operadoras nacionais, redes neutras e provedores locais amplia as opções para o consumidor e reduz a concentração.
A realidade muda conforme o tamanho da cidade
O bom resultado nacional não significa que a competição seja igual em todo o país. O relatório identifica duas realidades:
- nos municípios com até 30 mil habitantes, o HHI mediano fica próximo de 0,44, e a oferta costuma estar limitada a um ou dois provedores regionais de fibra;
- nas cidades entre 30 mil e 100 mil habitantes, o índice fica em torno de 0,30;
- nos municípios com mais de 100 mil habitantes, o índice varia entre 0,20 e 0,25, indicando maior concorrência.
Isso mostra que uma regra baseada apenas na média nacional pode ignorar diferenças importantes entre os mercados locais. Em muitos municípios pequenos, o provedor regional não é apenas mais um concorrente: é quem sustenta a oferta de fibra e leva conectividade onde a escala econômica é menor.
Por que esses dados importam para o provedor
O relatório oferece evidências oficiais para temas que a ASPRO defende junto à Anatel e ao poder público:
- os pequenos provedores são responsáveis por mais da metade dos acessos à banda larga fixa;
- sua atuação torna o mercado mais competitivo e amplia a escolha do consumidor;
- municípios menores têm condições econômicas diferentes das grandes cidades;
- obrigações regulatórias precisam considerar o porte da empresa e a realidade de cada mercado.
O próprio relatório conclui que a política regulatória deve ser segmentada, e não uniforme. Isso reforça a necessidade de regras proporcionais, que preservem a competição sem impor aos pequenos provedores custos incompatíveis com sua escala.
O que o provedor deve observar
Embora o relatório não crie novos prazos ou obrigações, ele deixa três alertas práticos:
- Manter atualizados os dados enviados à Anatel. Informações incompletas podem diminuir, nas estatísticas oficiais, a participação real dos provedores regionais.
- Analisar a concorrência local. A média nacional não substitui a avaliação por município, especialmente nas decisões de expansão da rede.
- Acompanhar o avanço do satélite. A fibra continua dominante, mas as conexões de baixa órbita já representam 1,10 milhão de acessos e ampliam a disputa em áreas remotas.
Mais do que registrar o crescimento do setor, o documento reconhece que os provedores regionais são parte essencial da infraestrutura e da competição na banda larga brasileira. Para a ASPRO, esses dados ajudam a transformar uma percepção conhecida pelo mercado em evidência oficial para a defesa dos pequenos e médios provedores.
Fontes oficiais:



